Em um movimento inédito e simbólico, o Flamengo se juntou a outros 19 clubes para boicotar a eleição presidencial da CBF marcada para este domingo. O gesto é uma reação direta ao sistema eleitoral da entidade, considerado desequilibrado e antidemocrático pelos participantes.
Além do Rubro-Negro, clubes como Corinthians, Fluminense, São Paulo, Cruzeiro, Internacional e Santos assinaram uma nota oficial comunicando a ausência. O documento reforça que os clubes estão dispostos ao diálogo com a nova gestão, mas exigem mudanças profundas nas regras do processo eleitoral.
Boicote desafia hegemonia das federações
A eleição da CBF tem apenas um candidato registrado: Samir Xaud, presidente da Federação Roraimense de Futebol. Ele foi o único postulante a reunir o número necessário de apoios — oito federações e cinco clubes — conforme as regras atuais.
Esse modelo, no entanto, é alvo de críticas há anos. O peso desigual no colégio eleitoral dá vantagem desproporcional às federações estaduais, que possuem voto com peso 3, contra peso 2 para clubes da Série A e peso 1 para os da Série B.
Na prática, a vontade dos clubes — que sustentam o futebol brasileiro em campo, mídia e bilheteria — acaba tendo menos influência na eleição da entidade que os representa.
Clube sem voz, futebol sem futuro
Em comunicado contundente, os 20 clubes ausentes divulgaram nota sob o título “Sem clube não tem futebol”. O texto denuncia a falta de democracia e representatividade no processo e afirma que o grupo está pronto para dialogar com a nova gestão, desde que exista abertura real para reformar o sistema.
“O futuro do futebol brasileiro precisa ser pautado pela democracia, transparência e representatividade. Neste domingo, haverá eleição para o próximo presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), mas não compareceremos à votação por discordarmos do processo vigente. Estaremos prontos para conversar com a nova gestão, a partir da próxima semana, para que juntos possamos debater como mudar o processo eleitoral e outras demandas dos clubes em prol de um futebol cada vez melhor.”
A nota foi assinada por: América-MG, Athletico-PR, Atlético-GO, Botafogo-SP, Chapecoense, Corinthians, Coritiba, Cruzeiro, Cuiabá, Flamengo, Fluminense, Fortaleza, Goiás, Internacional, Juventude, Mirassol, Novorizontino, Santos, São Paulo e Sport.
Reinaldo Bastos teve apoio informal de 29 clubes
Antes do encerramento das inscrições, Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol, recebeu apoio informal de 29 clubes. No entanto, não conseguiu reunir o número mínimo de federações necessárias para registrar a candidatura.
Isso escancarou a dificuldade que os clubes têm de interferir diretamente no processo, mesmo sendo os verdadeiros protagonistas do espetáculo. O caso só reforçou a necessidade de revisão urgente das regras eleitorais da CBF.
Flamengo lidera articulações por mudanças
O Flamengo tem desempenhado papel ativo na busca por mudanças estruturais no futebol brasileiro. Na semana passada, o presidente Luiz Eduardo Baptista (Bap) se reuniu com o próprio Samir Xaud para apresentar propostas de reformulação do modelo político da CBF.
Entre os pontos discutidos estavam justamente a revisão do sistema de votação, maior poder decisório aos clubes, implementação do fair play financeiro e estruturação de uma Liga Nacional autônoma. Mesmo com o boicote à eleição, o clube deixou claro que pretende dialogar com a futura gestão para pressionar por essas reformas.
Próximos passos
A eleição de Samir Xaud deve ocorrer sem surpresas, já que ele conta com apoio de 25 das 27 federações. No entanto, o boicote de clubes importantes lança uma sombra sobre a legitimidade do processo e pode gerar desgastes políticos logo no início de seu mandato.
Com o movimento “Sem clube não tem futebol”, Flamengo e os demais ausentes deixam um recado claro: a CBF só terá governabilidade real se respeitar e ouvir quem de fato faz o futebol acontecer — os clubes.

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